Romaria de Nossa Senhora da Peneda (Gavieira)

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Romaria de Nossa Senhora da Peneda (Gavieira)

Mensagem  Miguel Pereira em Qua Abr 07, 2010 12:52 pm


(Postal ilustrado antigo, do Santuário de Nossa Senhora da Peneda)

Lenda da Aparição da Senhora da Peneda:
Conta-se que a Senhora da Peneda apareceu a 5 de Agosto de 1220 a uma serraninha, que pastoreava algumas cabras por entre aquelas penedias.
A Senhora apareceu-lhe em forma de uma pomba branca voando ao redor dela e, pediu-lhe que dissesse aos do seu lugar da Gavieira para lhe edificarem naquele lugar uma ermida; a pastorinha falou aos seus pais da aparição da Senhora, mas sem efeito, porque não lhe deram crédito.
Noutro dia, voltando a pastorinha com as suas cabras por aquelas mesmas paragens, lhe tornou a aparecer a mesma Senhora na mesma lapa, não como na primeira vez, em forma de pomba (como ela referia) mas na forma em que hoje se vê, e lhe disse:
"-Filha, já que te não querem dar crédito ao que eu mando, vai ao lugar de Roussas (que fica na mesma freguesia de Gavieira, no mesmo termo do então concelho de Soajo) onde está uma mulher entrevada há dezoito anos e diz aos moradores do lugar que tragam à minha presença, para que ela fique de perfeita saúde, e assim te darão crédito ao que eu te ordeno."
Assim o fez a venturosa pastorinha, e trouxe a mulher que se chamava Domingas Gregório. Tanto que esta chegou à vista daquela Sagrada Imagem da Rainha dos Anjos, logo alcançou uma perfeita saúde e ficou livre e sã de todos os males que padecia, louvando a Virgem Senhora pelo singular benefício que lhe havia feito.

A Romaria:
A Virgem da Peneda, padroeira deste excelso oásis sertanejo de piedade e bucolismo, pela afluência de romeiros e fama de milagres, é uma verdadeira Senhora de Fátima do Alto Minho. A sua romaria é, por assim dizer, a "Rainha das Romarias do Alto Minho" e sem dúvida, a mais querida do povo de Arcos de Valdevez.
Á Peneda acorre não só o povo fiel dos Arcos, mas também de todo o Minho, de diversos pontos do País (principalmente onde residam arcoenses) e de muitos pontos da Galiza, já em Espanha.
Distinguiam-se os galegos oriundos das aldeias e lugares mais afastados, que se faziam transportar em mulas e jericos, que, uma vez chegados à fronteira, por exemplo, às aldeias de Pereira e Bouzadrago, tinham que deixar os animais, em famílias, já, com "reservas" de cortes para os abrigar e, claro, alimentar , pois as autoridades alfandegárias, apenas, permitiam a passagem dos peregrinos a pé. Uma vez em território luso, quer entrassem pelos Portos de Cima/Seara, pela Senhora do Anamão/Cainheiras, pela Ameijoeira/Mareco, ou, Mistura das Águas, surgiam-lhes as castrejas que lhes ofereciam os seus jericos, por serem muito mansos e não deixarem cair ninguém.

Para a romaria da Senhora da Peneda ainda descem, de vários pontos, através da serra, muitos peregrinos a pé, para os quais só assim a romagem resulta. No entanto, com as vias de penetração abertas pelos serviços florestais, a romaria foi perdendo o original pitoresco de outrora, com caminhadas nocturnas pelo deserto pedregoso e agreste, espreitadelas de lobos, dormidas ao relento e colações improvisadas à beira dos regatos. Era então, dias e noites seguidas, por todo o mês de Setembro, uma áspera continua e estafante peregrinação, verdadeira avalanche de devotos, vinda dos quatro pontos cardeais, no seio de uma paisagem austera e inóspita - pedregulhos informes, desfiladeiros íngremes, tojos, carrascos, urzes, - a qual, por si só, já constituía uma dura penitencia.
As águas batidas e revoltas humedeciam e esfriavam ainda mais a atmosfera inclemente. Os romeiros caminhavam durante horas intermináveis de abnegado esforço de noite à luz de lanternas e de gasómetros, de dia, quando a aurora de fazia anunciar sobre os raios dum sol impertinente, de farnéis ás costas, escasseando as concorridas sombras proporcionadas pelos penedões e pelas centenárias árvore. Os que partiam de Melgaço, pelas duas horas da madrugada detinham-se, ao nascer do sol, em Lamas de Mouros, pitoresca povoação nas cercanias de Castro Laboreiro, onde tomavam o café. Era aqui que se concentravam as burriqueiras para alugarem os jumentos ás pessoas idosas que viessem cansadas. Aglomerados de portugueses e de galegos, a cada passo se encontravam e juntavam, acamaradando na folia, com os seus descantes e bailados regionais.
Antigamente, a devoção à Senhora da Peneda mobilizava e deixava despovoadas na semana das festas, aldeias inteiras, ficando simplesmente os inválidos, os idosos e os muito jovens. As festas decorrem entre o dia trinta e um de Agosto e oito de Setembro de cada ano e "[...] os romeiros começam a afluir a 28 de Agosto para assistir às novenas. Todos os dias seguintes entra e sai gente de forma a que nunca se juntam todos os romeiros e é bom porque se assim não fosse não caberiam no recinto da romaria [...]" (A Concórdia, 18-9-1927).
O ambiente vivido nessa semana era muito sui generis. De cada aldeia, lusa ou galega, partiam os romeiros em grandes grupos, munidos de um cajado, no qual se apoiavam, do farnel, da pequena trouxa e dos indispensáveis instrumentos musicais. Os portugueses não se esqueciam do cavaquinho, da flauta ou da gaita-minhota e da concertina, enquanto que para muitos galegos o bombo, o reco-reco e a pandeireta eram instrumentos indispensáveis. Partiam, por princípio, com o pronuncio do crepúsculo da manhã e ao som das cantigas, que os jovens, rapazes e raparigas, faziam ecoar pelo silêncio da serra, ou, pelos caminhos das aldeias, que iam atravessando. À medida que se deslocavam, cruzavam-se, sucessivamente com outros grupos, que, em conjunto, continuavam a caminhada.


(vista actual do Santuário)

Pelo Miradouro entravam os romeiros provenientes, predominantemente, não só dos concelhos de Arcos de Valdevez (área sul) e Ponte da Barca, como todos aqueles lugares que lhes ficam a jusante, enquanto na Meadinha se reuniam, por princípio, os peregrinos oriundos dos concelhos dos Arcos (secção norte), Monção, Valença, Caminha, Vila Nova de Cerveira, ou, Paredes de Coura, que, seguindo itinerários distintos, tinham como nós imediatamente anteriores Gorbelas e Bouça dos Homens, enquanto os galegos, faziam a sua entrada pela Chã da Matança, Felgueira Ruiva, ou, por Tieiras e pelo Lagarto, aos quais se juntavam, predominantemente, castrejos e melgacenses. É a passagem dos romeiros em Val de Poldras. Aí passam eles aos milhares. Era um dos caminhos que mais romeiros levava à Peneda.
Independentemente do percurso efectuado, a chegada ao santuário verificava-se, sempre, após longas horas de uma dura caminhada, o que não impedia, contudo, que os romeiros se incorporassem, de imediato, nos rituais litúrgicos calendarizados e efectuassem as promessas, que se tinham proposto realizar, caso a Senhora lhes acudisse, na aflição, que os atingira. Um romeiro descreve no jornal A Concórdia de 18-9-1927 o ambiente festivo de outrora. "De dia e sobretudo de noite que doidejante alegria, que grande entusiasmo o de todo aquele povo que ri, que folga, deliciando-se naquelas expansões, sem excepcionar os velhos que também se sentem remoçar, lembrando anos longínquos em que vieram à romaria [...] não faltam tabernas de comer e beber, barracas de quinquilharias, mesas com refrescos, etc. [...]".
Após o dever religioso cumprido, quase sempre, com a noite a despontar, pulverizavam-se os grupos, lusos e galegos, que se distinguiam pelas desgarradas, músicas e bailaricos a estenderem-se pela madrugada. Eram verdadeiros arraiais, para os quais muito contribuíam a alegria manifestada nas gargalhadas e cantares dos grupos galegos.
Uma vez exaustos, os romeiros acolhiam-se sob uma lapa, ou, simplesmente, num cantinho, ou, num dos degraus do escadório, à espera que a manhã raiasse, para, em casos raros, se iniciar o regresso, pois a maioria permanecia, no mínimo um dia completo, de modo a ser-lhe possível participar nas celebrações estipuladas para esse período.


(Tocadores na Romaria da Peneda)

A Romaria actual:
Actualmente, a vulgarização do automóvel, a natural evolução dos tempos e o desejo de conforto, se tornou mais fácil e confortável a acorrência á Senhora da Peneda, tirou-lhe muito daquilo que a tornava típica.
Hoje em dia, a romaria realizada de 1 a 8 de Setembro segue a tradição das grandes peregrinações marianas da Época Moderna, onde a envolvente paisagística, nomeadamente a proximidade de um grande elemento rochoso natural e forte visibilidade, favoreceram o desenvolvimento de uma ambiência própria com maior liberdade festiva e um isolamento espiritual mais próximo das necessidades dos romeiros.
O povo vai acorrendo a partir de dia 1, cumprindo as suas promessas, fazendo os seus momentos de oração e participando nas numerosas Missas.
No dia 7 de Setembro, á noite, tem lugar a Procissão de Velas. Finda esta, tem lugar o ponto alto da Romaria: o povo invade os terreiros, os tocadores puxam das suas concertinas e os Viras, as Chulas e principalmente as Canas Verdes, sucedem-se a um ritmo alucinante durante toda a noite. Até de madrugada, toca-se e dança-se, canta-se ao desafio, come-se e bebe-se. Em resumo: há festa rija, como talvez só os minhotos saibam fazer e todos convivem com todos, como se todos fossem velhos amigos. Tal como antigamente, há uma outra altercação. Se, ao contrário de outros tempos, não há cenas de pancadaria rija, ainda hoje o ciúme por alguma moça, ou um "quartilho" bebido a mais, levam a uma ou outra cena desagradável, que no entanto é resolvida rapidamente.
No dia 8, tem lugar a majestosa "Procissão do Adeus" com a tão venerada imagem de Nossa Senhora da Peneda e no fim desta os peregrinos começam a pouco e pouco a regressar a suas casas, já com saudades e desejosos que o ano passe rápido, até á próxima romaria do ano que há-de vir.


(Altar-mor do Santuário, onde se pode ver a imagem da Senhora da Peneda)

O Santuário:
O Santuário de Nossa Senhora da Peneda, por baixo da Rocha da Meadinha, foi construído entre os finais do Séc. XVIII e os meados do Séc. XIX, pelo que o caracter neoclássico predomina no conjunto, embora haja ainda em certas partes mais antigas algumas reminiscências barrocas. Erguido junto de um morro alcantilado e agreste em frente de um vale estreito fértil. Deste vale rompe para o Santuário uma escadaria de dois lanços e 300 metros, em linha recta.
No cimo existe um pórtico que dá acesso a um terreno octogonal, que tem ao centro uma coluna com a data de 1787 e que suporta a figura do anjo da guarda. A rodear o pórtico e circundando o terreno, estão as primeiras capelas.
São de planta quadrangular, ou hexagonal com telhado em forma de pirâmide, encerrando no interior grupos escultóricos - alusivos à vida de Cristo.
De salientar ainda a existência dos designados quartéis (destinados a albergar os peregrinos) e as casas da confraria.


Última edição por Miguel Pereira em Qua Abr 07, 2010 1:48 pm, editado 1 vez(es)

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grande post!

Mensagem  Daniel Sousa em Qua Abr 07, 2010 1:10 pm

A senhora da Peneda é sem duvida uma festa marcante para quem lá vai (especialmente para malucos como eu!). A concertina é a rainha daquelas noitadas de Romaria!

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