A Guarda dos Campos

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A Guarda dos Campos

Mensagem  Miguel Pereira em Qua Abr 07, 2010 5:41 pm

Não faltam competidores na colheita dos frutos, o que obriga o lavrador a pôr-se á defesa.
Pardais são aos bandos, pelos campos e na eira. Ainda as espigas não estão maduras, já eles bicam o folhelho que esconde os grãos e vão retirando os mesmos, deixando apenas os carunhos.
No centeio, também começam cedo a catar sementes no meio das praganas. Atiram ao chão os caules tenros, posando sobre eles e, no meio dos regos, banqueteiam-se, sem medo a mais nada que não seja gato traiçoeiro que por ali apareça. Caem sobre as ervilhas, não as deixando nascer ou furando, depois, as vagens em busca do que está dentro.
Os lavradores mais cautos erguem espantalhos: um molho de palha, uns paus atravessados em cruz a fazer de braços, roupas velhas, um chapéu já sem préstimo, papéis ou plásticos a balouçar ao vento.
Mas reduzido é o sucesso, porque eles se vingam no resto, se não perdem até o acanhamento e se afoutam a entra em tudo como em terreno conquistado.
Só no Inverno, quando os apanham nos montes, no quentinho das medas de palha bem varejadas, para os obrigar a fugir e a cair na rede, se consolam de lhes estorcegar o pescoço, de os depenar e limpar bem os ossos, antes de os deitarem aos cães.
Os melros, apesar de deliciarem com os concertos de fim de tarde ou raiar da aurora, também fazem das deles.
E por isso não se importam de que os rapazes lhes deêm trato de polé: fisgas, canistrel armado, gaiola e morte por pasmo; filhotes envenenados com trovisco, se crescem e os pais reconhecem a impossibilidade de os verem livres da gaiola.
Do texugo, que onde dá leva as espigas a eito, defendem-se abrindo fojos e retirando-os, depois de mortos, para os enterrarem.
Luta difícil a travada contra animais, mas pior ainda é com pessoas, sobretudo por ocasião de uvas maduras, de batatas ou cebolas já vingadas, de malancias ou melões.
Montam, no campo, quando distante de casa, as barrochas, espécie de empanadas de abrigar os milhos nas eiras. Só que fechadas também do lado de trás, forradas no fundo e suspensas sobre barrotes.
Por baixo dorme o cão, sobre um pouco de colmo e coberto com uma manta fica o dono, ás vezes acompanhado de algum filho.
A buzina soa de vez em quabdo, a dar sinal de presença. E, pendurada a um lado, a espingarda, para o que der e vier.
Nas casas, também não faltam roubos: nas galinhas, nas caixas do milho, no ouro, na limpeza ou no dinheiro.
Deixam os cães presos, pois sempre é melhor tê-los por ali e darem sinal do que andarem arredios, em busca de cadelas.
Trancam as portas e janelas; dão duas voltas á chave, se há fechadura; procuram ter o sono leve e não se deixarem vencer pela preguiça, se os cães ladram ou sentem eles qualquer barulho suspeito.

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Miguel Pereira

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