A Boa Vizinhança

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A Boa Vizinhança

Mensagem  Miguel Pereira em Sex Abr 09, 2010 9:18 am

Há já alguns séculos que a sociedade minhota está consolidada.
Ainda antes da Idade Média já estavam devidamente estabelecidas as paróquias e os aldeamentos. No Alto Minho, até a área dos actuais concelhos, devido a circunstâncias várias, como as antigas feiras, estão já praticamente definidos. A permanência do ecossistema, em pequenas explorações onde se equilibra a produção de cereais com a criação de gado e alguns interesses na floresta e nos matos, ajudou a manter e fortalecer todo o sistema social.
Os trabalhos (muitos e muito variados), que tinham de ser levados a cabo ao longo do ano e o tipo de ecossistema fizeram modelos, mais ou menos amplos e elaborados, de reciprocidade.
Nas povoações de montanha, a solidariedade entre vizinhos é muitíssimo forte porque assim o impõe a dimensão dos trabalhos pastoris, a extensão dos baldios que se têm de preservar e a defesa dos seus interesses, só possível colectivamente. Na mancha predominantemente agrícola sobressai, muito mais, a fortaleza da família porque o seu mundo e o seu trabalho estão sobre as suas próprias terras.
As muito fortes relações de parentesco e entre vizinhos, existentes nas comunidades do Minho, satisfizeram quase completamente todas as suas necessidades quanto a relações. Por isso não foi preciso desenvolver outras fórmulas como as de confrarias/confrades ou as de compadrio, como se verificam, por exemplo, no Ribatejo e Alentejo. Embora haja o tratamento de compadre e se estime tal relação, porque para padrinho dos filhos se convidam as pessoas mais amigas e consideradas ou os parentes mais próximos, também é verdade que o parentesco e a grande solidariedade gerada do baptizado ou do crisma, se situa entre o padrinho e o afilhado.
Assim sendo, as necessidades do cultivo das terras, do cuidado dos animais e de outros bens, levaram o lavrador do Minho a valorizar os vínculos vicinais. O arranjo dos caminhos locais, o cuidado colectivo pelas águas geralmente partilhadas, favoreceram este espírito comunitário, essencial para um melhor funcionamento da vida local. Nas aldeias sente-se tanto a utilidade da entreajuda e de colaboração, que não se admite um morador que não colabore e, por isso, á semelhança de velhas práticas medievais, quando isso acontece, hostilizam-no e quase o forçavam a mudar de terra. E isto tudo não diz respeito só ao trabalho: Se as alegrias são partilhadas por todos, as tristezas (uma doença grave ou um luto) também são vivamente sentidas por todos os habitantes do lugar, que em muitos casos se sobrepõe á família de sangue e chegam mesmo a substituí-la em certas ocasiões. Não é raro que um vizinho que por qualquer motivo estivesse de relações cortadas com outro, numa situação de desgraça fosse o primeiro a acudir-lhe. Um mau vizinho, porque entrava o bom e constante relacionamento entre todos é considerado uma desgraça. ,
Compreende-se assim, que nas rezas da ceia, que antigamente se faziam em todas as casas depois da refeição da noite e que consistia numa série de intenções, seguidas de um Pai-Nosso rezado em comum, sempre se rezava, depois de pedir pelas almas de parentes e benfeitores, para que S. António nos livrasse "de ferros d'El-Rei e dos maus vizinhos de ao pé da porta", ele que em vida salvara o pai de ser enforcado, devido a uma calúnia levantada por um mau vizinho.
Em S. Romão do Coronado (na Trofa, antigamente pertencente á Província do Minho), havia quem rezasse, devota e expressivamente, do seguinte modo (e peço desde já desculpa da expressão):
"-Para que S. Bartolomeu nos livre de todos os filhos da puta de ao pé da porta! Pai Nosso..."
Neste caso, é curioso reparar que era o santo protector dos "medos" e contra as manifestações do Diabo que se invocava para afastar tal desgraça.

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Miguel Pereira

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