Tradições da Noite de São João

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Tradições da Noite de São João

Mensagem  Miguel Pereira em Qui Abr 15, 2010 7:09 pm

Diz a tradição quem em muitas fontes, rios e bosques habitam fadas e outros seres imaginários.
Quanto ás primeiras, bem apregoados andam os seus poderes: "Alguma má fada o viu", "tocou-lhe com a varinha de condão", "foi bem/mal fadado", etc.. A inúmeros contos dão origem e irresistíveis são os seus enredos, sobretudo no domínio da literatura infantil.
Para o povo, certas práticas tomam vulto sobrtudo na noite de São João (23 para 24 de Junho). Assim, todo aquele que á meia-noite se lavar numa fonte ficará curado dos seus males; se sofrer de bócio, terá então de beber água de nove fontes.
Ao relento deixam muitos um vaso com água na qual deitam flores e ervas aromáticas, lavando-se nela, depois, com especial empenho sobretudo os que são portadores de qualquer mazela corporal.
As raparigas espargem também, á meia-noite, num copo meado de água uma clara de ovo e apressam-se, no dia seguinte, a observar a forma por ela tomada: se é uma igreja, julgam significar casamento próprio; se é um barco, que alguém ligado á familia ou o próprio noivo irão partir para longe; um caixão será indício de morte de alguém muito querido. Quando há indefinição de contornos (o que mais vezes acontece) procuram qualquer traço que sugira aquelas ou quaisquer outras formas.
Há alegria ou tristeza, conforme o resultado.
Sem dúvida, nem todas tomam a sério estes augúrios.
Algumas riem e dizem piadas brejeiras a propósito. Mas não falta quem se deixe influenciar, a ponto de entristecer, de chorar e perder a vontade de comer.
Por isso, as mães, como outras pessoas responsáveis, contrariam a prática ou até a proíbem, esclarecendo que nada daquilo tem fundamento. É tambem habitual, em muitos lugares, fazerem-se fogueiras e cascatas, que duram até altas horas da noite.
Há sempre alguém que canta e uma ou várias concertinas a acompanhar e a reforçar as vozes:

"Ó meu rico São João,
ó meu belo marinheiro!
Levai-me na vossa barca
lá pró Rio de Janeiro!"

E, mudando de métrica e de intensidade:

"Rep'nica, rep'nica, rep'nica,
São João a suar em bica!

Rep'poila, (1) rep'poila, rep'poila,
feijão branco, arroz na caçoila"

Antes de regressarem a casa, procuram as moças atravessar algum campo e apanhar as "orvalhadas de São João", na esperança de que isso possa, como diz a tradição, aumentar-lhes a beleza.
Também, em muitas freguesias, costumam homens e rapazes entrar nos quinteiros dos lavradores e retirar dali o carro de bois, o arado, a grade e outras alfaias agrícolas e colocá-los no caminho ou nalgum largo próximo.
E conta-se que um ou outro lavrador, com alardes de esperteza e gabando-se de ter o sono leve, ameaçado de que lhe fariam "alguma", se pôs a dormir em cima do carro e acordou, de manhã, bem longe da sua casa e mais orvalhado que as couves da sua horta.

(1) Esta palavra pertence ao dicionário do povo e pouco mais será que um significante criado por uma mera necessidade rimática.

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