O Casamento

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O Casamento

Mensagem  Miguel Pereira em Sex Maio 07, 2010 5:59 pm

Se o noivado fora Primavera florida, com a cor e o perfume de muitos sonhos, a boda era o culminar dde todos eles e o raiar duma vida em que havia muito de aliciante.
Dia de festa, não havia sacrifício que se não fizesse para o deixar memorável. Sobretudo se os pais da noiva não dispunham de grandes posses, visto serem eles a suportar as despesas do festim, acrescidas ainda das do enxoval.
Depois, eram ainda as canseiras, pois nem sequer se conseguia espaço para acomodar todos os convidados e tinha de recorrer-se ao coberto e ao quinteiro, atapetado este com nova camada de mato, sobre que se espalhava roço, para não picar; colocar longas filas de tábuas sobre cadeiras, para poderem sentar-se e com as mesmas improvisar mesas.
Por cima, panais da azeitona abrigavam do sol e lenços chineses davam nota colorida. Á entrada e por vezes a meio e nos extremos, levantavam-se arcos floridos, com festões pendentes e desenhos ornamentais.
Para os mais pobres, a simplificação impunha-se, no vestuário e em tudo o mais. Mas nem por isso a data deixava de ficar na memória de todos.
Era objecto de grandes cuidados o veestido da noiva, ricamente confeccionado se os pais eram ricos e o casamento feito a gosto. Para isso, se recorria á melhor costureira das redondezas e se procurava fosse ela a escolher tudo o que era preciso comprar e ainda a ajudasse a vestir e a pentear.
O ramo ou palmito, que no fim ia depor no altar de Nossa Senhora, como preito de homenagem e também em jeito de pedido de bençãos, era prenda do noivo, bem como alguma peça de vestuário ou arrecadas de ouro.
Nos locais onde havia mais gosto pelo folclore, o fato usado pela mãe ou avó, depois de bem assoalhado e de ter recebido alguma reparação indispensável, servia ainda para o mesmo efeito.
O noivo vestia também o melhor que lhe era possível: fato de boa fazenda, camisa de linho (bordada pela noiva e por ela oferecida), cravo ao peito, a grossa corrente a pender duma casa do colete até ao bolso onde acomodaa o relógio.
As alianças eram oferta dos padrinhos de casamento, a quem competiam também as despesas do processo, a pagar na Igreja.

Apareciam cedo os convidados e começavam a petiscar qualquer coisa e a molhar as gargantas com o vinho verde ou algum cálice de Porto.
Traziam quilos de arroz e de açucar, que entregavam na cozinha, pois "Quem vai á boda, leva que coma".
Chegada a hora da partida para a Igreja, do quarto onde se vestira e penteara, com a ajuda da mãe e de alguma amiga, saía a noiva, alegre e sorridente.
Já o que ia desposá-la ali se encontrava e não tardavam a pôr-se a caminho - os dois á frente, muito felizes e a comitiva atrás e aos lados.
Das casas, espreitavam velhas e crianças e, no regresso, as raparigas desciam ao caminho, abraçavam e espalhavam pétalas de flores ou confeitos.
Ao chegarem a casa, servia-se o almoço, quase todo preparado com produtos caseiros: galos, algum pato ou perú, presunto, chouriços e salpicões, batatas, hortaliças, arroz, fruta e doçaria.
Vinho era sempre bastante e do melhor.
Todos se sentiam felizes e muito mais os noivos. Mas eles sabiam ter de acautelar-se, pois não era raro haver quem procurasse pregar-lhes partidas.
Por isso, nunca, á noite, deixavam de verificar se não haveria no meio da palha do colchão alguma pola de mato ou açucar espalhado pelos lençóis ou cobertores.
Extinta a euforia do dia e noite de núpcias, tudo prosseguia sem alterações do ritmo habitual. Lua de mel não a havia entre o povo e a nova vida dum par que se unira por laços indissolúveis trazia consigo o definhar de sonhos e devaneios.
Agora era trabalhar e dar-lhe de duro, como viam fazer aos outros.
Se ficavam a viver com os pais ou sogros, o que mudava de ambiente tinha de adaptar-se a pessoas e costumes; aprender os sítios das coisas e o inventário de existências; saber ouvir e calar; ter modos e sorrisos para todos.
E braços prontos para deitar a mão ao que fosse preciso, sem olhar a pesos nem a cansaços.

Montar casa e viver independente dava mais gosto, com os dois a puxarem certo, que uma roda só não anda. Mas nem sempre era possível.
Partiam do zero muitos deles, sem mais do que o indispensável para as neccessidades de primeira ordem. Outros levavam de dote uma leirinha e não lhe deixavam um palmo sem cultivar. Tomavam algumas terrinhas de renda e criavam galinhas, ovelhas, um porquito e uma tourinha.
Em certas freguesias (poucas, valha a verdade) o mais velho (o chefe ou a chefra, consoante se tratasse de rapaz ou rapariga) conservava uma espécie de direito de morgadio: iria ser o senhor de quase todos os bens, dirigindo trabalhos e negócios e a todos os irmãos impondo a sua autoridade, como vira fazer aos pais.
Vinham os filhos e misturavam-se com tios e demais parentes e a casa ia de vento em popa, com a compra de mais uma courela, o plantio de videiras, de árvores de fruto, vedação de propriedades com muros, novos esteios a suportarem mais latadas.

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Miguel Pereira

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